quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Rio Grande, a pequena cidade da região metropolitana

Metrópole: Constitui um tipo especial de cidade, que se distingue das menores não apenas por sua dimensão, mas por uma série de fatos, quer de natureza quantitativa, quer de natureza qualitativa.  As atuais regiões metropolitanas tem como pontos comuns dois elementos essenciais: a) são formadas por mais de um município – o que lhe dá o nome – representando uma área bem maior que as demais; b) são objeto de programas especiais, levados por organismos regionais especialmente criados, com a utilização de normas e de recursos em boa parte federal. São, na verdade, regiões de planejamento, onde todavia, o que é feito não atende a problemática geral da área limitando-se a aspectos setoriais. (SANTOS, Milton, p. 75-76). A urbanização Brasileira 1994.

Autores: Felipe Nóbrega; Ticiano Pedroso
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Foto: divulgação
Quando da proposição de uma Região Metropolitana de Pelotas , Miriam Marroni não foi nada além de pelotense.

Tendo, até então, a sua cidade como sede de um aglomerado que ainda inclui: Arroio do Padre, Capão do Leão, Pelotas, Rio Grande, São José do Norte, Canguçu, Cerrito, Monte Bonito, Pedro Osório, São Lourenço do Sul e Turuçu. Não é nada exatamente novo, pois remete a uma iniciativa de Bernardo de Souza, ex-prefeito de Pelotas já falecido, e também existem ações nesse sentido por parte do deputado Catarina Paladini.

E repitimos, todos, apenas, foram pelotenses. E só. Sem escândalos, sem recalques, apenas publicizaram um ethos todo próprio, todo singular dessa cidade com ares de Paris, mas com um bairro chamado Sanga Funda e código de área 53.

E o que isso revela? Ou essa iniciativa, que já sofreu modificações, revela?
A completa incapacidade da cidade de Rio Grande ser protagonista na região, pelo simples fato de ser uma cidade que não consegue “se vender” como tal.
Um exemplo rápido: em Pelotas uma propaganda televisiva bate e rebate nas “maravilhas” da cidade, e a certa altura chega ao ponto de apresentar uma torre mequetrefe alocada em praça pública como uma réplica da Torre Eiffel.
Outro: qualquer, mas qualquer mafuá mesmo tem ou o jogo americano com referências a cidade, ou quadros, fotografias, enfim, qualquer elemento que possa confirmar o quanto Pelotas é a Paris dos pampas.

Ponte/limite entre RG e Pelotas/Foto: dos autores
Ponte/limite entre RG e Pelotas/Foto: dos autores
E Rio Grande, o que faz com o seu slogan de “Rio Grande, cidade do mar, cidade histórica?” Nada! Vale lembrar que a cidade não possui nenhum turismólogo no seu quadro do funcionalismo público, nunca houve concurso para tal.

O que temos hoje, em termos de recursos humanos que gerem a cidade na questão sócio-turística, é um grupo de pessoas que até são bem intencionadas naquilo que fazem, mas que não possuem a qualificação para pensar além da criação de mais e mais museus, como se isso fosse uma atitude de incremento turístico e valorização da cidade.

Nas redes sociais o assunto sobre a criação da região metropolitana de Pelotas aguçou o "ódio" dos riograndinos pelos “pelotenses metidos”. Alguns esbravejavam dizendo que “esta mulher só pode estar louca” , “cadê as nossas autoridades pra nos defenderem dessa crueldade?”

Na realidade essa prática pode ser facilmente entendida. Historicamente existe uma grande diferença entre as duas cidades, o qual remete para os seus respectivos passados gloriosos. Rio Grande sempre foi e será uma cidade industrial, isso explica muita coisa, quase tudo por aqui pode ser entendido por esta lógica (espero um dia poder provar). Por outro lado, Pelotas sempre foi um expoente cultural, "moderna", onde os valores locais são colocados em primeiro plano.

Rio Grande como cidade portuária, industrial, se contenta em ser um local por onde as pessoas passam, ganham dinheiro e vão embora. Não propicia a vontade de ficar, de permanecer nesta terra. Existem muitas poucas opções de escolha e a cidade se alimenta desta restrição.

Por outro lado, Pelotas estagnada economicamente há décadas, sobrevive em cima de sua condição de centralidade. Pois ela abrange uma série de pequenas cidades as quais justamente se abastecem no comércio local de Pelotas. A isso, também se agrega o questão educacional da cidade, que é um polo da região extremo sul, com suas universidades e campus do Instituto Federal.

Embora a cidade de Rio Grande detenha hoje o 4º maior PIB do Estado, esse valor não representa nenhum tipo de melhorias na qualidade de vida do cidadão papareia. Pois a cidade continua sobrevivendo com o mesmo leque de opções (salvo algumas exceções) a qual existia antes de 2008. Basta ver a quantidade de pessoas que se deslocam até a cidade vizinha em busca de diversão, lazer, opções culturais e compras no comércio.

Trocando em miúdos, a contradição da coisa toda é: Rio Grande nunca se pensou como protagonista da região, e Pelotas acredita que ainda ocupa esse lugar.

Pelotas já não é protagonista nem de novela mexicana do SBT desde 2008, quando da instalação de um Polo Naval em Rio Grande. Ali ficou estabelecido um futuro irreversível: se tornar uma cidade-dormitório. E com essa condição, onde ia parar o status da cidade, ou melhor, o ethos que ela carrega em cada uma de suas esquinas, e por tabela, está incorporado em cada um de seus nativos ?

Ora, em ações e projetos como esse, em que, no detalhe da vírgula, na forma inconsciente de organizar o mundo, sobressaem e deixam ver como Pelotas ainda pensa a si mesma.

Não que seja um projeto ruim em si, a justificativa é razoável, e faz sentido dentro do contexto de distribuição de verba para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), agora, o que não faz sentido, é a forma completamente isolada com que Miriam tratou do assunto, pegando de surpresa a própria região e os seus colegas parlamentares dessas bandas.

Miriam já alterou o projeto, retirando o nome de Pelotas do título, e assim Rio Grande pode dormir tranquila. Porém, isso não esconde o fato de que, até hoje, pouco ou nada se fez nada no sentido de trazer para Rio Grande esse protagonismo turístico-social, bem como o próprio protagonismo econômico. Simples assim.

Sendo assim, o que resta, ao que parece, é viver de choro. Então, vamos todos guardar o nosso balde no pátio e esperar uma próxima oportunidade para chorar e reclamar de Pelotas, ou de qualquer outra cidade, pois o importante é manter a síndrome de primo-pobre, que não só incorporamos como mostra-se um lugar cômodo de viver.

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Foto divulgação Mirian Marroni


Texto publicado no site tucotuco em: 14/10/2013

Outro viés de informação

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O Filósofo francês Pierre Lévy, um dos maiores especialistas do mundo na cultura virtual
Enquanto me deparo com a página branca do programa Word, recordo do que tenho lido. Pierre Lévy, é um autor francês que atua na área da educação, comunicação, história, ciências sociais, filosofia, entre outras. É difícil enquadrá-lo dentro de uma caixinha do saber ou em estante da livraria. Suas pesquisas transitam entre muitas as esferas do conhecimento.

Em As Tecnologias da Inteligência, livro escrito no início dos anos 1990, Lévy apresenta o conceito de hipertexto[1], assim como faz um histórico de toda a evolução da tecnologia digital e, de alguma forma, “profetiza” o que mais tarde nós vivenciaríamos em nosso dia- a- dia.

Precisando escrever algo sobre mídia, comunicação, pensei justamente em apropriar-me melhor dos conceitos de Lévy, mas percebi que este livro está um pouco defasado com relação às tecnologias da informação. De certa forma, todos nós, mesmo não tendo nascido nos anos 2000, tornamo-nos (por obrigação ou curiosidade) um pouco “nativos digitais”.

E isso me faz pensar nas possibilidades existentes e também na fluidez do mundo contemporâneo. Enquanto uma obra da literatura, história, sociologia, entre outras da área das humanas demora anos, décadas, para ser descoberta, lida e virar uma referência no assunto, qualquer outro texto que verse sobre tecnologias desaparece e se torna ultrapassado na mesma velocidade em que se produz outro.
Quando falo em possibilidades, me refiro ao universo virtual o qual estamos inseridos, nas possibilidades de buscar o que quisermos com apenas um clique. Não tenho dúvidas de que a conjuntura vivenciada é um momento histórico, de profundas modificações em todas as atividades humanas. Você ainda tem dúvidas disso?

Quanto tempo você fica conectado a sua rede social por dia? Quantos dias você fica sem acessar o seu e-mail? 

Dentro disso, relações sociais são modificadas, novos comportamentos são criados e sujeitos estabelecem novos padrões de comportamento frente a uma sociedade que se apresenta mais acessível, mesmo tendo as suas limitações.

A televisão ainda continua sendo o maior meio de informação, o rádio também cumpre um papel crucial, mas, cada vez mais, ambos caminham para uma grande revista de variedades fúteis.
Engana-se quem acredita que a TV é democrática e que com o seu poderoso controle remoto é capaz de controlar os múltiplos canais que lhe custam ao final de cada mês uma boa e pesada parcela do salário. Digo isso, simplesmente, pelo fato de que nós somos, sim, enganados por esta inverdade do livre arbítrio do controle remoto. Nós escolhemos o que vamos ver, mas a escolha se dá dentro de uma opção que nos é dada, a partir de uma disposição do que podemos e estamos dispostos a desembolsar na mensalidade.

Isso não acontece quando nos sentamos na frente de um computador. Basta ter uma conexão à internet para que o sujeito comece a acessar o que ele deseja. Neste espaço/mundo virtual, as pessoas não estão obrigadas a “engolirem” um conteúdo, ao contrário, a própria ideia de navegador, de endereços, é o fator mais democrático e turístico que eu conheço. Basta digitar o site, ou chegar nele por meio de hiperlinks, para que o indivíduo se transforme em um verdadeiro navegador do mundo virtual.

Espaços antes impossibilitados, lugares talvez nunca visitados, materiais inacessíveis, tudo isso e muito mais, foi possibilitado pela rede mundial de computadores. E é esse acesso democrático à informação que deve ser valorizado e priorizado por todos nós.

Hoje em dia, as grandes corporações de jornais, revistas e televisão encontram dificuldades em lidar com uma nova forma de mídia que surgiu com o advento da internet. A mídia alternativa, independente, gratuita, cada vez mais conquista o seu espaço no grande público, fazendo uso justamente de programas e softwares livres para atingir os seus objetivos, a propagação. Essa talvez seja a maior vitória de todo esse processo, o acesso a informação gratuita e de livre escolha. A informação que se transforma em mecanismos lúdicos, de estudos, pesquisas, debates, lutas e transformações sociais.

O Tuco tuco nasce justamente engajado neste movimento da democratização da mídia, da propagação de informações ao livre acesso de todos. A iniciativa de juntar cinco blogueiros da cidade de Rio Grande foi materializada em uma mesa de bar, debatendo e expondo necessidades de se ter um veículo forte de informação que não esteja ligado a nenhuma corporação, e que, dentro disso, possa ter a liberdade para abordar temas que não são sequer mencionados na mídia tradicional.
Sejam bem vindos! Aproveitem o nosso espaço, leiam, curtam e compartilhem nossos materiais.

Texto publicado no site tucotuco em 13/09/2013

[1] Tecnicamente um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria estende suas conexões em estrela de moda reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede interna.
Funcionalmente, um hipertexto é um tipo de programa para a organização de conhecimento ou dados, a aquisição de informações e a comunicação. (LÉVY, Pierre, 1993, p. 33).

Contradições da mídia moderna

Programa Sala de Redação, Radio Gaúcha 10/10/2013, segundo bloco.

O debate se estendia a respeito de uma coluna da Zero Hora de hoje, em que a reportagem mostra o então presidente do Brasil, João Figueiredo, negando um pedido de realização da Copa do Mundo no Brasil em 1986, pedido esse feito por João Havelange, presidente da CBF na época.

Figueiredo alega  que existem outros problemas no Brasil para serem resolvidos, como as favelas e as secas no nordeste.

Então, o comunicador Lauro Quadros pronuncia a seguinte frase: "Por isso que eu tenho saudade da Ditadura".

Wianey Carlet diz: As pessoas que agora se manifestam contra a copa, eram pra se manifestar contra o Lula, foi ele que fez isso tudo, que trouxe a Copa. Quando anunciaram a copa as pessoas foram pra rua fazer festa.

Vejamos então: Quando a Copa do Mundo foi anunciada no Brasil, no ano de 2007, a grande mídia promoveu uma série de festividades para comemorar o anúncio. A Rede Globo patrocinou e fez a transmissão dos diversos shows que aconteciam na Praia de Copacabana.

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Aqui no Sul, a RBS também realizou uma série de reportagens a respeito do tema. Quase todas as matérias mostravam os benefícios que a vinda da Copa do Mundo poderia trazer à região, principalmente, aos empresários do ramo turístico e hoteleiro.
Em outubro de 2012, quando um grupo de manifestantes quebrou/furou o mascote da Copa do Mundo em Porto Alegre, a RBS repudiou o fato se colocando ao lado das empresas que estavam promovendo aquela ação de marketing no centro da capital gaúcha.  Inclusive, eu me lembro muito bem do comentarista Lasier Martins esbravejando a moralidade e os bons costumes e, obviamente, condenando o ato de vandalismo no Jornal do Almoço.
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O que mais chama atenção são o quanto as opiniões  vão sendo moldadas, modificadas conforme o contexto. Quando o grupo no qual tu trabalhas promove ações de marketing das gigantes patrocinadoras do evento, a Copa do Mundo é boa,  é aceitável e todos devem sair pra rua para fotografar e cultuar o Fuleco. Quando um grupo de pessoas não condizentes com a Copa se manifesta e depreda o mascote, eles são vândalos.

Quando esse movimento ganha proporções maiores e se espalha pelo país inteiro, a grande mídia também se vê ameaçada, uma vez que ela também é alvo das manifestações e protestos. A partir deste exato momento, a Copa se torna ruim, o discurso das ruas é incorporado,  é apropriado por aqueles que detêm o poder de transmitir e formar opiniões.

Neste momento, o foco da Copa do Mundo passa a ser justamente a falta de estrutura do país para receber o grande evento, passa a ser a carência por setores essenciais para a qualidade de vida do povo brasileiro. Isso tudo acontece depois que os estádios estão construídos, que milhões foram investidos e os patrocinadores já fecharam os contratos para o evento.
Neste momento, condenar o Lula e sentir saudades da Ditadura Militar é uma sensação extremamente aceitável.

Partido da Imprensa Golpista (PIG): estamos de olho!

 Imagem retirada do facebook na épocas das manifestações de Julho.

Texto publicado no site tucotuco em: 10/10/2013


Escolas fakes, alunos spam’s e os cavalos de tróia nas redes sociais

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Ultimamente tenho andado cansado, afastado das discussões e descrente no poder de mudança da sociedade. Sei que desagrados fazem parte do cotidiano de cada um nesse mundo cão. Minha profissão de educador não permite entregar as esperanças antes dos 60, é preciso sempre acreditar numa mudança futura, onde paradigmas sejam quebrados e, novas ideias, formas de pensar e entender a sociedade permeiem o início de uma “nova era”.

Gostaria de acreditar nisso, talvez, ainda bem lá no fundo existe uma luz verde que pisca em momentos como esse e me diz: Não desacredita, não perca a fé e lute pelas suas ideias, confie em você próprio e não espere muito do mundo, pois ele é injusto com todos. 

Mas afinal de contas, o que isso tudo tem a ver? Por que estou fazendo todo esse alarde num texto que deveria refletir sobre o ambiente escolar e as redes sociais? Justamente porque esse cansaço está ligado ao que vivo e vejo nestes locais. Vamos aos fatos!

As redes sociais me fascinam, sou um viciado, dependente cibernético que condicionou boa parte do seu cotidiano para esse universo virtual. Se hoje as redes me fascinam pela dinamicidade e facilidade de comunicação, por outro lado, elas também são responsáveis por parte de meu cansaço mental e descrença num futuro melhor, pois expõem o que há de mais raso e mesquinho habitando nas entranhas da sociedade.

Uma breve incursão por uma escola estadual de ensino médio da cidade me serve como elemento de análise. O uso do uniforme não é uma exigência legal, ficando por conta da instituição a obrigatoriedade ou não deste. Antes que me critiquem pelo o meu posicionamento, gostaria de deixar claro que sou contra qualquer tipo de atitude alienante, que desconsidere a liberdade de escolha do indivíduo. Acontece, porém, que o uniforme coloca todos os alunos em um mesmo nível visual, o da vestimenta. A não utilização deste, torna o ambiente escolar mais segregador e quando analisamos os adolescentes do ensino médio este fato fica evidente.

Existe uma tendência natural e compreensível dessa faixa etária em externar o aspecto visual como forma de afirmação frente ao seu grupo e à sociedade. Dentro disso, os alunos ostentam no ambiente escolar determinadas marcas de roupas, calçados e acessórios que, por fim,  transformam-se em signos de identificação, diferenciação e exclusão.

A descaracterização do aluno da escola pública estadual ,contraditoriamente, tem uma característica: o boné - a “bombeta” ou “panelão” como são conhecidos - juntamente com os fones de ouvido predominam no cenário. No decorrer dos anos esses acessórios se transformaram “em uma parte do corpo dos jovens”. Solicitar para que o tirem da cabeça é uma afronta despótica, atitude inadmissível dentro de um ambiente onde o professor perdeu autoridade devido às teorias pedagógicas que humanizaram demais o ensino e, por consequência, resultaram na perda de autoridade e de autonomia da escola.

Dentro da sala de aula poucos sabem o conteúdo que está sendo trabalhado, emana de seus olhares o desprazer de estar ali. Existe dificuldade, por parte dos alunos, em acatar ordens dos professores. Qualquer pedido, cobrança é facilmente entendido por ofensa, levado para o lado sentimental e o aluno se entende como vítima.

Os pais delegam à escola o papel da educação. O professor cobra postura do aluno. O aluno se sente injustiçado, perseguido, por conseguinte, reclama do professor e o professor culpa o Estado pela situação. O Estado não paga o piso, bate no professor, investe pouco em educação e exige muito de seu trabalho. Uma bola de neve que  só serve para expor a degradação do atual ambiente escolar.

O resultado desse cenário pode ser verificado através de uma pequena amostra grátis do novo termômetro da sociedade, as redes sociais. Uma grande massa desconhecedora dos assuntos, compartilha, curte e expõe suas opiniões embasadas em spam’s, fakes, hoaxes, virais da internet, elaborados, na maior parte das vezes, sob forte teor ideológico extremista.

Diariamente, assisto na time line e nos grupos fechados o show dos moralistas, dos antipetistas, dos antitucanos, da extrema direita, dos anarquistas, dos desinformados e daqueles que viram nas redes sociais a possibilidade de  externar e resolver todos os problemas do universo.

Yves de La Taille, psico educador da USP, destaca que um dos principais problemas do caráter educacional da sociedade se dá justamente com relação à informação. Existe a dificuldade de criar nexos, raciocínios entre os fatos, para transformar  informação em conhecimento.

O “show das times lines” pode ser visto como o produto resultante de uma sociedade embebida na informação rasa, fragmentada, sensacionalista, que se limita a entender um texto pelo o seu título,  que é incapaz de associar e interpretar aquela leitura como parte de um contexto histórico e social.
Portanto, nesse dia do professor, desejo que vocês criem muitos nexos, desacomodem-se, não desanimem frente ao cenário degradante da educação pública, lutem por seus valores e principalmente, resgatem o espírito da luta de classe histórica do magistério.

Para quem desejar saber mais sobre o tema autoridade e autonomia na escola, uma indicação de leitura: Yves de La Taille. Autoridade na escola. In Autoridade e autonomia na escola. Julio Groppa Aquino (org).

Texto publicado no site tucotuco em: 15//10/2014

Eu quero morar no Facebook

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 Quando escrevi o primeiro texto para o Tuco Tuco comentando sobre a internet ser um veículo facilitador de acesso às informações, as quais nós escolhemos ver, ler e repassar, referia-me exatamente ao ponto que eu considero mais positivo dentro deste espaço virtual: a democratização da informação.

No entanto, nem tudo são flores. Existe outro ponto de vista (o lado negativo) que eu não me referi no primeiro texto e deixo bem claro que não estou falando de deep web, isso é matéria para outro escrito. Quando me refiro ao lado negativo, quero expressar justamente as coisas desnecessárias que acabamos vendo, perdendo tempo (pensando, escrevendo) e às vezes como eu, até me indignando. Este texto é um exemplo mais claro disso!

Não que eu me considere o baluarte da moral e da civilidade, mas digo isso exatamente pelo fato de que coisas ruins me fazem pensar e, por vezes demandam muito mais energia do que as coisas boas. Já dizia alguém aí que ‘as grandes ideias surgem a partir das crises, dos conflitos e dos momentos de reflexão’.

A internet, mais especificamente, as redes sociais, e ainda pra ser mais direto, o Facebook,  tornou-se uma grande janela aberta para o interior da vida subjetiva de cada indivíduo. É possível conhecer a personalidade de um ser humano pela sua página pessoal na grande comunidade?

Acredito que não por completo, mas é possível ,sim, traçar um perfil de comportamento e um padrão de conduta via feed de notícias e perfil. Cada post, curtida e compartilhamento, revela um pouco do que gostamos, expressa também as nossas identificações e o que almejamos como padrão de sociedade ideal.

O resultado disso tudo é que hoje o Facebook se transformou numa perigosa armadilha para qualquer ser humano. Dentre os milhares de analfabetos funcionais que convivem e compartilham ,diariamente, o mesmo espaço nas redes sociais, existe o sujeito esperto, que age justamente em cima da falta de conhecimento do grande público.

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Este sujeito faz desse nicho o seu hábitat de trabalho, respaldado “cientificamente” no discurso de Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e da nova sensação reaça, Rachel Sheherazade. Ele passa boa parte do seu dia se dedicando a elaborar imagens com frases e ,posteriormente, sair espalhando a sua produção na timeline e nos grupos fechados.

Quando me refiro à janela aberta para o interior da vida subjetiva, penso justamente nos significados que cada post pode ter. Alguns dirão que não tem nada a ver, que pode ser uma coisa de momento, sem pensar. Sinceramente, eu não creio. Acredito no fato de que cada postagem vem carregada de grande dose ideológica, sentimental e de personalidade.

É justamente aí que mora o perigo para a maioria do público que habita o universo das redes sociais. O principal problema, contraditoriamente, é a falta de informação, pois carecem de leitura, informam-se por títulos de notícias, comentários, e tem o Facebook como principal fonte. Este sujeito é a isca preferida dos abutres, alvo fácil para os mais ávidos sentimentos conservadores e reacionários travestidos no discurso da neutralidade apartidária que se apresenta como solução rápida e viável para varrer de vez a corrupção do Brasil.

Por outro lado, as redes sociais transformaram-se no local perfeito para morar. Trata-se de um mundo extremante justo e repleto de muitos amigos, pessoas bonitas de bem com a vida, inteligentes, politizadas, com uma visão crítica de sociedade. Se existe algum problema, este pode ser facilmente resolvido num simples comentário. Neste fantástico mundo, o gaúcho é a raça ideal, afinal de contas, o “Deus Maior”, Arnaldo Jabor nos definiu como o povo preferido. Luiz Fernando Veríssimo, outro ser divino deste mundo, optou por não condensar todos os seus escritos num livro só, ao contrário de uma tal de Bíblia, preferiu escrever milhares de textos e publica-los separadamente no decorrer de sua vida. Tati Bernardi e Marta Medeiros também foram canonizadas devido a sua grande contribuição bibliográfica para o entendimento do complexo universo feminino.

A popularização da internet no Brasil deveria vir acompanhada de uma evolução no setor educacional. Juntas (internet + educação) tornam-se uma ferramenta poderosa na formação do cidadão. No entanto, como já é de costume no país, a teoria da modernidade inconclusa mais uma vez predominou.

De acordo com o sociólogo José de Souza Martins, “o caráter inacabado da modernidade se expressa nos ritmos desiguais do desenvolvimento econômico e social, no avanço tecnológico, na acumulação de capital, na miséria e na injustiça. A modernidade anuncia o possível e não o realiza (Martins, 2010). Martins se refere às possibilidades que a modernidade abriu para a transformação da humanidade, mas que não é capaz de realizar e, pelo contrário, bloqueia o possível.

No caso aqui debatido, a inovação se apresenta através do computador, internet e inúmeros programas, mas o modus operandi permanece velho e retrógado, com um povo que não sabe ou tem preguiça de tirar proveito da informação, que opta pelo mais fácil, por ler o resumo em vez do livro.

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Texto publicado no site tucotuco em: 02/02/2014



Pra que serve um vereador?

O que devemos esperar de um representante do povo na casa do povo?

Ora, justamente que ele cumpra o seu verdadeiro papel, que é legislar, fiscalizar o andamento das políticas em âmbito local, além de propor medidas, fundamentadas em estudos, que venham a contribuir para a melhoria da vida urbana e social de uma cidade.

Isso não me parece ser um tema tão complexo, de difícil entendimento. Na realidade, deveria ser de conhecimento geral. Qualquer indivíduo deveria ter a obrigação de saber quais são as funções de cada político, afinal de contas, estamos envolvidos diretamente com eles a cada dois anos.

Isso é algo que se aprende na educação básica, quando a tia nos ensina como funciona a casa, a escola, a cidade e o Estado. Mas enfim, talvez muitos alunos não estivessem dispostos a aprender isso, pois não iria fazer muita diferença nas suas vidas. As continhas de somar e multiplicar eram mais interessantes quando ensinadas com notinhas do banco imobiliário.
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Vereador de Rio Grande usando sua rede social
Ou talvez, por alguma ocasião torta da vida, o aluno tenha faltado a essa aula e, em consequência disso, não tenha realizado o tema, que era justamente a leitura do texto e a resposta de algumas perguntas sobre os direitos e deveres dos cidadãos. Os pais desse menino, que haviam trabalhado o dia inteiro, estavam cansados e não deram muita importância para fato do menino não ter prestado atenção e nem ter copiado a matéria na aula. Eles até deram razão para o filho, pois também achavam que a professora estava fazendo algum tipo de represália contra a criança. Por esse motivo o apoiaram em não querer ir à aula, afinal de contas, ele estava quietinho vendo desenhos em casa e o tirar do conforto do lar para assistir duas aulas de história seria uma crueldade tremenda.

Esse menino atravessou toda a vida escolar sem saber direito qual era a verdadeira função dos políticos que governavam a sua pequena cidade. Um dia ele completou 18 anos e foi obrigado a votar. Como não gostava de política, pois cresceu ouvindo seu avô - um homem do campo que veio para cidade trabalhar - dizer que “política, futebol e religião não se discute”, optou por seguir os conselhos do amigo, que iria votar no vereador que lhe conseguiu um emprego e um terno de camisas de futebol para o time.

O menino que não gostava de ir à escola concluiu os estudos do Ensino Médio num colégio particular da cidade, cursando EJA no turno da noite. Ele precisava do diploma para conseguir um emprego e, como existia a possibilidade de terminar o segundo grau em apenas 6 meses,  não hesitou e foi logo se matricular. Atualmente,  continua no mesmo emprego, trabalhando em uma indústria na cidade de Rio Grande.

Em relação à política, ele se atreve a dar alguns palpites, embasado nos comentários que assiste no Jornal Nacional e no programa do Datena. Não simpatiza com o governo, pois esse o extorque todos os meses com taxas e impostos exorbitantes que não são revertidos em melhorias na saúde, educação, segurança e infraestrutura urbana.

Acredita que a política de cotas é uma forma de beneficiar o negro que, historicamente, sempre teve as mesmas oportunidades e chances que o branco. Em relação ao atual Governo Federal, ouviu comentar que estamos diante de uma ditadura comunista, que tira dinheiro dos ricos para dar para os pobres. E os pobres, ao invés de estarem trabalhando, ficam em casa recebendo benefícios do Bolsa Família.

Vislumbra algumas mudanças no futuro do país, quando as coisas realmente funcionarem. Por isso, torce para que Joaquim Barbosa seja candidato à presidência, pois ele é uma pessoa idônea, que nunca precisou de cotas raciais e colocou na cadeia um bando de corruptos do PT. Diz que é preciso haver justiça, redução da maioridade penal, pena de morte e o cidadão deve ter o direito de se defender com as suas próprias mãos, já que o Estado não faz isso.

Atualmente, fez um perfil no facebook, onde passa boas horas do dia lendo as postagens de um grupo de discussão e informação dos acontecimentos locais.

Foi por meio dessa página que ele tomou conhecimento do trabalho de um vereador da cidade, que pela simplicidade e coragem de mostrar os “verdadeiros” problemas, já ganhou o seu voto para a próxima eleição. Afinal de contas, ele é do povo, é um homem simples, que não hesita em “largar na mão” dentro de um hospital pra defender o colega de bancada ou em mergulhar na valeta para mostrar os  alagamentos nas vilas.

Pouco importa se o vereador está cumprindo com o que manda a sua função, afinal de contas, o rapaz da história nunca se interessou por esses assuntos. Cresceu sem saber como funcionava o aparelho administrativo da sua cidade e acredita que ações iguais a desse legislador são dignas de aplausos, pois ajudarão na resolução dos problemas.

E até hoje aquele menino não conseguiu aprender para que serve um vereador...

Texto publicado no site tucotuco em: 26/03//2014

Contrastes urbanos. O triângulo da península entre o passado e o presente

No dia em que uma parcela da cidade comemora a abertura do primeiro shopping Center de Rio Grande, o Tuco Tuco apresenta uma reflexão espacial sobre um dos locais mais valorizados da cidade e, também, um dos que mais apresenta problemas de infraestrutura urbana.

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Diante da cidade que se projeta como uma das mais importantes do cenário econômico do Rio Grande do Sul, e até mesmo do Brasil, frente à euforia propagada pela melhora significativa na qualidade de vida daqueles que conseguem ter um emprego de carteira assinada e,  consequentemente, ter acesso a bens de consumo antes impensáveis, é necessário também, despirmos de nossos “mimos pessoais” para adentrar nos locais onde nem todos conseguem ter acesso ao que está prescrito na proclamação dos direitos humanos: saúde, moradia, educação e qualidade de vida.

Nas últimas semanas, o assunto da moradia popular e as condições de habitabilidade voltou a ser tema de debates e notícias entre os veículos de informação da cidade. Moradores das chamadas “vilas”, (São João, São Miguel e Bosque), localizadas nas redondezas do novo grande empreendimento comercial, manifestaram toda a sua indignação em relação às condições de falta de infraestrutura urbana dessa região.

Em Dezembro de 2013, o Tuco Tuco realizou uma entrevista com o prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer. Nessa ocasião, foi mencionada a possibilidade da cidade ser contemplada com um grande programa habitacional. Seriam mais de 1.200 casas a serem erguidas, justamente, numa das regiões mais valorizadas e também, mais problemáticas, a Junção. Nesse caso específico, o projeto visa à construção de nova unidade habitacional no grande campo que se estende da estação de integração até os limites do bairro Marluz e Vila Maria. Juntamente com o bairro, também são previstas a construção de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e  de uma escola para atender a nova comunidade.

Alguns passos atrás...
No início do século XX, quando a cidade de Rio Grande ainda possuía uma população em torno de 40.000 habitantes, a urbe passava por um processo, poderíamos dizer, “semelhante” ao que estamos vivenciando hoje, resguardadas as devidas proporções.
Crescimento industrial significativo, proporcionado por indústrias de grande, médio e pequeno porte. Um Porto Novo, pronto para atender às demandas de cargas nacionais e internacionais e um crescimento populacional gerado pela migração de trabalhadores. Esse aumento da população expôs pela primeira vez o problema de habitação e de moradia popular em Rio Grande.
Nessa época, pra ser mais específico, em 1909, chegava à cidade, a convite do então prefeito, Juvenal Octaviano Miller, o renomado engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito.
Brito era o que havia de mais moderno e capacitado em termos de pensamento urbano. Elaborou projetos de saneamento para cidades como Campos, Santos, Recife, entre outros inúmeros trabalhos. Chegou em Rio Grande com a missão de elaborar um projeto de saneamento em que as condições geográficas e ambientais pudessem ser aproveitadas.
Ao percorrer grande parte da região, observando e realizando testes sobre a captação de água, Brito constatou que o triângulo da península era uma dos locais mais propícios para a instalação dos poços absíneos. No entanto, pela possibilidade  de aproveitar a área mais próxima ao centro, onde já existia a caixa d’água, acabou optando por erguer a rede de captação na Hidráulica.

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Mais de um século depois, o Triângulo da Península permanece ali, não tão natural, não tão triângulo assim. O seu solo não é mais puro como antes. Talvez a água do lençol freático, que naquela época se mostrava de boa qualidade para o consumo, esteja condenada, pois, estamos há décadas convivendo com uma poluição desmedida no Saco da Mangueira, onde as indústrias da Barra despejaram toneladas de litros de produtos químicos em nossas águas.

Talvez até mesmo a população, que passou a habitar de forma irregular essa região, tenha contribuído para isso, construindo suas valetas e fossas sépticas sem nenhum tipo de orientação técnica.
Todavia, não podemos culpar essas pessoas pela contaminação do solo, pois elas foram privadas do direito de morar por uma política incapaz de controlar a gana do setor imobiliário. Uma politica que passou décadas sem criar alternativas viáveis de moradia popular. O fato é que hoje a área se apresenta como o principal local de crescimento urbano. Restaurantes, integração de transporte, lojas automotivas, supermercados e até mesmo o primeiro “palácio do consumo” estão sendo organizados, erguidos e planejados nessa região.

O antigo triângulo da península, local delimitado pelas duas linhas férreas que se abriam a partir da Estação da Junção, hoje volta à tona dos debates. Sejam eles por conta das inúmeras famílias que habitam o local em situação de grave vulnerabilidade social e clamam por melhorias, sejam pelo shopping Center Praça Rio Grande, ou sejam, também no horizonte vislumbrado por esse grande projeto de moradia popular, que pretende regularizar e dar condições dignas de vida a milhares de pessoas.

É esperar e torcer para ver.
Texto publicado no site tucotuco em 23/04//2014

O viralatismo papareia

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A síndrome do vira-lata nunca vai deixar de habitar o espírito papareia.

Sabe por quê? Porque até hoje, sempre o que se teve de melhor por aqui foi o osso que sobrou do almoço, atirado num canto em cima de um papelão, para um famigerado cão que se contentava em sentir o gosto da carne apenas lambendo o que ainda havia colado no osso.
Então, você acha legal pegar o seu carro, rodar 60 km, pagar pedágio e ir até a cidade vizinha, conhecer o Shopping Pelotas.

Então, você passa a tarde inteira dentro do palácio do consumo, se empolga com o tamanho das lojas, com as facilidades de compra, promoções e acaba se esbaldando nas “comprinhas”.
Aí então, depois de passar uma tarde inteira lá dentro, bate aquela fome e tu sentas na praça de alimentação pra fazer aquela "boquinha". Paga algo em torno de 20 reais por um refrigerante e um salgado e sai de lá ainda com muita fome.

No final do dia, no caminho de volta, tu vens refletindo sobre o quanto foi legal o passeio, o quanto um shopping pode ser um espaço de “passatempo” e até mesmo de sociabilidades. Percebes que gastasse alguma coisa e que este valor poderia quem sabe ser investido em outras coisas do mesmo gênero.

Mas e daí? Não valeu a pena?
Claro que valeu, pois foi um passeio diferente, com lojas que você não conhecia, dentro de uma infraestrutura bonita, limpa e segura.

Os shoppings proporcionam essa sensação de impacto nos seus frequentadores, pois, são justamente um dos maiores símbolos de representação do sistema consumista em que estamos inseridos. Logo, tudo neles deve ser grande, causando o êxtase instantâneo, levando os passeantes às compras.
A lógica por mais excludente que seja, é essa. Ninguém ali dentro está se importando se você terá a grana pra pagar a fatura do cartão no final do mês, o que realmente importa é aliar o prazer instantâneo da compra com a sensação de bem estar do ambiente, combinação poderosa. Sendo assim, tudo ali dentro tem um valor.

Os banheiros limpos, o chão brilhoso, a segurança do local, os atendentes da loja, o estacionamento do seu carro. Tudo ali tem um preço, as pessoas que ali estão trabalhando no domingo e no feriado, enquanto tu passeias com a tua família, são pagas por isso, você sabia disso?

Portanto, está na hora de apreendemos um pouquinho a viver nesse mundo real, criado por nós mesmos. Você aí no seu lugar se diz neoliberal, adora mandar todos os petistas pra Cuba, mas, na internet é o primeiro a reclamar dos preços "absurdos", do estacionamento e dos produtos da praça de alimentação do Shopping Center.

Uma grande parcela da cidade de Rio Grande reclama da falta de “coisas para fazer”. Outra parcela reclama dos altos preços cobrados, outra reclama da fila do supermercado, outra reclama dos congestionamentos, outros reclamam do tédio e todos juntos reclamam de tudo, simplesmente porque é bom reclamar. Reclamar é um hobby dos seres humanos mal resolvidos.

Eta povo difícil esse!

Texto publicado no site tucotuco em: 11/05/2014

E você, serve a quem?

Qual é o papel da mídia?
Informar?
Opinar?
Educar?
Informar opinando? Informar educando? Ou Informar opinando com forte teor ideológico?

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Sinceramente, eu não sei. E talvez seja exatamente por isso que eu tenho estado tão ausente desta página. Em épocas de informações instantâneas, e de formadores de opinião em cada perfil, questiono o fato e a necessidade de escrever opinando. Já que para  informar existem os jornais.
Para o que se escreve?
Para quem se escreve?

O que eu espero que as pessoas sintam quando lerem o meu texto?
Quem é o público que eu quero atingir com os meus escritos?
Vale a pena expor meus sentimentos?
Não seriam as minhas opiniões carregadas de sentimentos e ideologias?
Não estou sendo puramente informativo quando escrevo?
Vale a pena discutir pela internet?

Estou conseguindo contribuir para um mundo melhor com as minhas ideias?
Seriam as minhas ideias favoráveis à construção de um mundo melhor?
Será que esse mundo melhor não é puramente uma projeção/reflexão do que eu imagino ser o melhor para mim?

opinião 

Quem se importa com o que eu penso?
Quem lê o que eu escrevo?
Conseguirei mudar o mundo através do meu teclado? É óbvio que não.
Então, pra que escrever?
Sinceramente, eu não sei.

O cantor, poeta e escritor pelotense Vitor Ramil tem uma música que se chama "Um dia você vai servir a alguém". Nela são apresentadas, de forma quase sempre comparativa, duas pessoas/profissões antagônicas, mostrando a relação de dependência existente entre as duas figuras.
Pois então, escrever também é um ato de servir a alguém.

O seu material pode servir de combustível pra inflamar massas de revoltosos que podem se manifestar via internet ou até mesmo encabeçar um movimento social.
O seu escrito pode ser utilizado como uma forma de racionalizar algum sentimento pendente na sociedade. Ou pode simplesmente ser apropriado por algum espertinho, que troca o seu nome e saí publicando em várias páginas por aí.

O seu escrito pode servir a algum grupo político (partido) que faz oposição ao governo. O seu escrito pode servir como sustentação de argumentos e ideologias para quem está no poder.
A História tem deixado esse assunto cada vez mais claro, seja ele no Renascimento, no Iluminismo, nas Revoluções Burguesas ou no belicoso século XX. Os escritos sempre foram apropriados e utilizados para movimentar questões políticas.

Aristóteles, há III séculos antes de Cristo, já dizia uma coisa mais ou menos assim: "O homem é um animal político". Sendo, então, nós animais políticos, somos dotados de opinião, sabemos nos posicionar de um lado ou de outro. Mesmo que não tenhamos certeza plena do fato, conseguimos estabelecer parâmetros que nos colocam a favor ou contra.

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Sendo assim, não acredito em imparcialidade, não acredito em isenção, não acredito em informação pura. Todas elas veem carregadas de subjetividade, de ideias e pensamentos, que compõem o escritor, por mais que isso esteja seriamente restrito a uma linha editorial.

Não existe certeza, não existe imparcialidade, não existem escritos sem argumentos, não existem argumentos sem posicionamentos, não existem posicionamentos sem ideologias, não existem ideologias sem interesses políticos, econômicos e religiosos.

Você um dia vai servir a alguém!

https://www.youtube.com/watch?v=npK8Ylahjeo

Texto publicado no site tucotuco em: 03/08/2014

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A arte na crise ou a crise na arte?

Neste final de semana as duas cidades do extremo sul do Rio Grande do Sul, respiraram cultura.
Em Pelotas, ocorreu a virada cultural com shows de diversos artistas, incluindo o nativo e mais expressivo artista local Vitor Ramil. O evento aconteceu concomitante com a feira do livro no centro histórico de Pelotas.  

Rio Grande, recebeu o maior encontro de grafite do mundo o “Meeting of Styles” . Os muros da SAC foram cobertos da mais pura arte urbana, o evento também foi gratuito  e contou com o apoio da Prefeitura Municipal.

Grafite nos muros da SAC
Foto retirada do perfil oficial do prefeito de Rio Grande Alexandre Lindenmeyer

No meio de um cenário político, econômico obscuro que estamos atravessando, cabe aqui destacar as duas iniciativas dos governos municipais. Ambas as prefeituras estão nas mãos dos dois partidos mais dominantes da política nacional, PSDB e PT. Embora, tenhamos duas visões distintas de projetos políticos, é possível encontrar um fio condutor semelhante entre elas neste momento, a cultura ganha um espaço no qual antes não tinha, a democratização.

Rio Grande parece seguir o exemplo que vem dando certo da vizinha ao lado, a valorização do patrimônio histórico e a exploração dos espaços públicos da cidade.  Neste ano, organizou a Festa do Mar no centro histórico, aberta ao público, com preços acessíveis, com o seu principal produto, a anchova sendo comprada de uma cooperativa de pescadores e sendo vendida a preço acessível.
Os resultados da Festa do Mar foram surpreendentes, a população não estava acostumada a curtir eventos públicos, a caminhar pela cidade na noite, a contemplar as convidativas fachadas dos prédios históricos iluminados. Os leões marinhos, ainda estão pelos espaços públicos, enfeitando e sendo atrações turísticas. 

O passe livre no domingo de festa também foi outro diferencial, pois não basta só criar uma festa popular ao ar livre, se tu não crias também os meios para as pessoas de baixa renda acessarem estes locais. Mais um ponto para a Prefeitura de Rio Grande.


Depois de anos, ofertando uma Festa do Mar seletiva, onde as ruas eram fechadas e até mesmo cobravam-se estacionamentos nestas, a lógica parece ter se invertido, e para o desgosto de muita gente, deu certo.

A praça Tamandaré, também tem recebido alguns eventos nos sábados a tarde, encontros de músicos riograndinos tem ocupado o espaço e dado um resultado bem bacana, ao exemplo do que já vem fazendo há muitos anos Serginho da Vassoura de Pelotas. Inclusive, ele e sua trupe estiveram aqui na Praça Tamandaré fazendo um som com seus instrumentos improvisados.

Atitudes como essas são dignas de aplausos. Vivendo em uma era onde a "camarotização" prevalece, onde os indivíduos gastam o que tem e o que não tem para serem Vips, onde os espaços são devidamente marcados e exclusivos, precisamos sim de uma retomada da coisa pública. Afinal de contas, o capitalismo transformou a arte em espetáculo pago, consequentemente caro e sendo assim, inacessível a uma grande parte da nossa sociedade, que por consequência, se tornou mais triste, mais chata, menos crítica e alienada aos meios de comunicação.

A arte é expressão divina, e a manifestação do gênio humano.  O inconsciente produz e o consciente lê os resultados, já diziam isso os filósofos alemães do século XIX, conhecidos no mundo por encabeçaram um movimento intelectual que tinha por finalidade revolucionar as estruturas do mundo moderno através de uma nova concepção de leitura da arte, o Romantismo alemão. 
O que chama atenção dentro de tudo isso, é justamente o fato de que o romantismo alemão ganha forças e formas justamente no momento em que a Alemanha passava por muitas dificuldades de cunho social. 


A expansão do Capital concentrado nas mãos de uma seleta burguesia, contribuiu para o empobrecimento de grande parte da população o qual passou a depender quase que exclusivamente da venda de sua mão de obra, em outras palavras, crescimento de um proletariado urbano vivendo em condições precárias.

A Alemanha da época, que ainda não era Alemanha e sim um conglomerado de 36 Estados encabeçados pela Prússia, sofria com as consequências das Revoluções Burguesas nos países vizinhos e lutava para encontrar um elemento o qual os dessem condições de mais tarde servir como instrumento de luta na construção de uma identidade nacional. Vivendo neste ínterim, os românticos encontram na produção estética dos artistas um elemento capaz de revolucionar.

Rio Grande ainda está muito aquém do esperado no campo cultural, principalmente no quesito espaços de arte, locais onde os artistas possam manifestar e expor as suas artes. Mas, uma série de sinais tem sido dado e também cabe aos artistas e a comunidade pressionar os setores públicos por mais visibilidade. 

Em épocas de crise financeiras a arte se apresenta como um elemento amenizador, um instrumento capaz de dotar o ser humano com aquilo que ele tem de mais importante que é o exercício de seu intelecto. Portanto, não vamos esperar a crise bater para fazer e viver a arte, mas já dizia Moisés Mendes que a arte é de esquerda, uma vez que ela tem que ser crítica e não pode ser acomodada, não existe genialidade criativa no acomodamento. Teatro Mágico em certa música, diz: A Felicidade bestializa, o sofrimento humaniza.

Ocupar a cidade, viver os seus espaços ainda continua sendo a melhor rede social!


Texto citado do jornalista Moisés Mendes:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2015/08/moises-mendes-esgotou-se-o-repertorio-de-lobao-4818837.html

Sobre a virada cultural de Pelotas:
http://www.diariopopular.com.br/index.php?n_sistema=3056&id_noticia=MTA1OTA3&id_area=MA==